Memórias da Varanda ou aventuras de navegadores de curto curso.

sábado, 26 de setembro de 2015

Um pedacinho do Memórias da Varanda ou Aventuras de Navegadores de Curto Curso



MEMÓRIAS DA VARANDA OU AVENTURAS DE NAVEGADORES DE CURTO CURSO

Você vai deliciar se com a leitura das mais incríveis e verídicas histórias desta turma de velejadores animados e irreverentes. Vai dar boas gargalhadas com as enrascadas em que se metem, vai aprender como não cometer alguns erros em veleiros e, caso sejam cometidos, como corrigi-los.
Prefaciado pelo Roberto Barros Mesquita, o conhecido “Cabinho”, Passando pelo “Monstro de Cabo Frio”, com seu final totalmente inesperado, com o impacto da loura navegando em solitário e esplendorosamente nua, você vai achar que foram poucos os trinta e cinco capítulos nas duzentas e onze páginas deste livro.
Ao embarcar nesta emoção, alguma mudança vai ocorrer com você. Se você não é ainda um navegador, com certeza desejará ser. Você encontrará uma turma de companheiros e vai se juntar a eles nas páginas deste livro. Vivenciará  tantos momentos engraçados, felizes e agradáveis que quando terminar a leitura, vai desejar ter um barco para dar segmento a estas aventuras. Você vai descobrir como ser feliz com tão pouco, vai esquecer dos problemas do cotidiano e tudo que preocupa uma pessoa quando está em terra firme. Vai descobrir que quando se entra a bordo, inconscientemente se despe de todas as preocupações. Se você já é um navegador e sabe de tudo isto, possivelmente vai se reconhecer em muitas destas histórias.   
Seja bem vindo a bordo, traga alguém para compartilhar estas aventuras com você, vamos soltar as amarras e começar a navegar!       

        SUMÁRIO

Como comprei um veleiro maravilhoso ao voltar para casa, no Rio de Janeiro


1
Diante de uma tragédia fiquei a lembrar a música do Lupicínio Rodrigues


11
Como pintei eu mesmo o pomacanthus e gastei muito mais do que se tivesse contratado um profissional para fazer o serviço



13
Uma loira esplendorosa, com os longos cabelos ao vento e completamente nua, cruza o caminho do Poma e eu acabo pagando o pato



16
O dia em que o meu anjo da guarda cochilou e vendi o Poma


21
Como passei a entender um amigo que nunca tinha me deixado na mão


23
Como o espírito do Poma se vingou do assassino que o matou e também do amigo que a ele me apresentara


33
O objetivo social da marina pública da glória que foi posteriormente minimizado e depois esquecido


35

Fazendo novos amigos


39
As brincadeiras com a turma

45
Quem traçou o rumo para Fernando de Noronha e o barco foi parar na Ilha Grande?


59


Como o Roska vingou-se do Professor               
    
61
Prazeres de verão ou como navegar com uma turma de loucos em uma traineira que estava com o motor enguiçando e sem bússola



63
Festa a bordo com muita música e a voz maviosa da musa dos embarcados


73
A patescaria, o banho do professor e a expulsão do demônio do templo


79
O mendigo marítimo

84
O monstro de cabo frio que afundava os barcos de pesca fazendo com que o preço do peixe disparasse no mercado



91
Quando a Elis Regina cantou Arrastão jamais poderia imaginar um arrastão


96
A noite em que o Charles Aznavour não agradou e lá se foi um jantar a luz de velas


101
Um pé de tênis faz a felicidade do pescador

107
O Osmógrafo
110
A Jacuzzi naval
116

Uma noite de cão, pois estava com quase quarenta graus de febre, mesmo assim fui



119
Auxiliamos uma lancha que havia subido em uma pedra, graças a um peculiar pedido de socorro com sotaque lusitano



127
Quem não entende atende, ou, é melhor prevenir do que remediar


132
O dia em que conheci o Jota

134
O Explorador de lajes e uma moqueca de tirar o fôlego

137
No mar sempre aparecem fantasmas, que geralmente são amigos


141

Prazeres de verão, quando as férias de final de ano se tornam inesquecíveis e também se formam os comandantes de primeira viagem



148
Você nuca ouviu falar da Boipeba?

152
Um trapalhão na capitania

164
O barco que gostava do pessoal da capitania, ou, como um fato toma proporções gigantescas na medida em que vai correndo de boca em boca


170
Diretamente de Hollywood para me colocar em fria
178
Passarinho que acompanha morcego dorme de cabeça para baixo

186
GLOSSÁRIO




 Uma loira explendorosa, com os longos cabelos ao vento  e completamente nua, cruza o caminho do Poma e eu acabo “pagando o pato.”




A pintura finalmente ficou pronta e novamente o Pomacanthus foi todo prosa para a água. Como ele era bonito!
Encontrei com meu amigo Estevão e chamei-o para darmos uma velejada, pois ele ainda não conhecia meu barco. Durante o percurso, falou-me de um seu amigo, que estava interessado em comprar um veleiro e se eu venderia o Pomacanthus.
Eu estava profundamente abatido tanto moral quanto financeiramente; os custos do processo mais as despesas do conserto do barco que não estavam em minha programação, deixaram-me de caixa baixa e eu andava preocupado com o julgamento no Tribunal Marítimo. Se fosse condenado estaria falido.
Disse-lhe para convidar seu amigo para dar uma navegada conosco.
No dia seguinte, ele trouxe o amigo, que veio de botas, calças jeans, blusão de couro e capacete de motociclista para conhecer o barco.
Eu já os esperava e para evitar as remadas para a poita, já havia encostado o Pomacanthus no velho píer de madeira do clube para facilitar o embarque, passando apenas uma espia pela proa, que estava contra o vento, que era quase uma aragem e que, dessa forma mantinha o barco encostado totalmente no cais, embora praticamente solto.
Feitas as apresentações, pedi que embarcassem.
O motoqueiro encostou as duas mãos no guarda - mancebo para se apoiar, fazendo força para  frente, ao que o barco foi afastando-se do píer e ele esticando-se com as mãos no barco e a ponta das botas no píer, até ficar com o corpo totalmente na horizontal. TCHBUN! Caiu na água com toda aquela indumentária, de baixo das gargalhadas de todos que estavam no local, que não eram poucos.
Tempos depois, descobri que o Pomacanthus fizera aquilo de propósito, pois nutria por ele verdadeira ojeriza como veremos adiante.
Emprestei-lhe uma sunga e ele tirou a roupa molhada, colocando-a para secar no convés de proa.
O camarada era muito desajeitado, tropeçava em todos os fuzis, e esticadores, caia a toda hora, era um desastre ambulante a bordo, mas acabou comprando o barco, para desespero do Poma, que não o suportava. Sempre que podia, acertava-lhe a cabeça com a sua retranca ou tirava uma nesga de carne do seu dedão do pé, fazendo-o sangrar. Tudo aconteceu, naquele pouquíssimo espaço de tempo em que estivemos juntos naquela velejada. O Poma nutriu por ele ódio à primeira vista, e com toda a razão.
Durante os anos em que o Poma foi meu, pude notar que ele só aceitava a minha mão em seu comando, pois toda a vez que entregava seu leme a outrem, ele arranjava sempre um jeito de protestar. Porém, era muito hábil em dissimular suas ações, tinha sempre uma desculpa para ocultar suas vinganças.
Certa vez, tinha ido com o Orlando, que era ótimo velejador e regatista, abastecer de Diesel no posto do Iate Clube do Rio de Janeiro. Após o abastecimento, liguei o motor, pedi ao frentista do posto para soltar as amarras e saímos. Como minha carteira de dinheiro estava jogada no cockpit, solicitei ao Orlando que segurasse no leme por uns minutos para que pudesse ir à cabine guardá-la. Foi o suficiente para despertar a reação de ciúmes do Poma. Quando estava no interior da cabine, ouvi um barulho enorme de uma batida. Corri para cima ver o que tinha acontecido. O Orlando estava congelado, branco como cera e de boca aberta, querendo articular as palavras sem conseguir. Tínhamos acabado de abalroar um veleiro, que estava parado na bóia!
Como foi isto Orlando?
Ele apontava com o dedo, sem conseguir ainda pronunciar as palavras, para outro veleiro que estava um pouco adiante de nós. Então entendi o motivo do desastre.
Uma loura escultural, conduzindo um enorme veleiro de bandeira francesa, sozinha a bordo,   segurava com os braços esticados a enorme roda do leme. Os raios do sol batendo em seus doirados cabelos longos, que bailavam  ao sabor dos ventos, em uma dança sensual  e ainda por cima,... Completamente nua! A pele clara, bem cuidada, totalmente hidratada e bronzeada pelo sol. O Orlando estava sem fala,  não pela batida  mais sim, por causa da loura,  que o petrificava, também fazendo-me esquecer momentaneamente do acidente e, posteriormente, permanecendo em meus pensamentos por muito tempo. Que visão esplendorosa!
O Pomacanthus era assim, dissimulado, ele nunca assumia sua culpa nas suas vinganças, deixando sempre que eu pensasse que ele era a vítima. Custei a perceber sua malicia.
Que crueldade, provocar aquela aparição deslumbrante na frente do Orlando só para distrai-lo e faze-lo bater, escolhendo até o barco que queria abalroar,   para que também não se machucasse, escolheu um Marreco 16.
Ainda bem que era um Marreco 16 pois tive que pagar o conserto, troca do estai de proa, e um fuzil que quebraram na batida, fazendo o mastro cair para a popa, já pensou se fosse um barco maior?

195


                                                    

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